O agro ganha força política com o Congresso eleito, mas ainda precisa garantir resultados

FPA/Divulgação

A aproximação entre a Frente Parlamentar da Agropecuária e Flávio Bolsonaro alimenta a expectativa de que as necessidades do campo encontrem mais espaço no próximo governo. Nesta terça-feira, 6 de outubro, a bancada se reuniu com o candidato e discutiu crédito, seguro rural, armazenagem e outras demandas do setor. A diretoria da FPA já havia declarado seu apoio em 1º de outubro.

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Há razões para essa mobilização. O produtor precisa financiar a próxima safra enquanto busca uma saída para dívidas acumuladas. Também precisa de seguro para que uma perda climática não comprometa anos de trabalho. O apoio político pode ajudar a encaminhar essas soluções, mas boa parte delas depende de recursos.

As entidades estão fazendo sua parte ao organizar propostas. O Sistema FAEP, por exemplo, elaborou uma agenda nacional para os presidenciáveis, com reivindicações de previsibilidade no Plano Safra e integração entre crédito, seguro e gestão de risco. O passo seguinte será negociar como essas medidas poderão ser executadas.

A força do Congresso

A FPA informou que 200 de seus integrantes foram eleitos ou reeleitos para o Congresso. É uma presença expressiva, que dá ao setor condições de influenciar decisões na Câmara e no Senado.

Vejo nessa representação uma oportunidade para o agro. Parlamentares comprometidos com a produção podem defender mudanças nas leis e cobrar respostas do governo. Mas o caminho entre aprovar uma medida e fazê-la chegar ao produtor depende também das decisões do Executivo.

Se Flávio vencer, a proximidade com a bancada poderá facilitar esse entendimento. Ainda assim, a afinidade política não elimina a disputa por recursos dentro do governo. Se Lula for reeleito, o setor terá de negociar com sua equipe e usar a força parlamentar para construir acordos.

Quando Executivo e Legislativo pensam de maneira diferente, a negociação se torna mais difícil. Mesmo quando há alinhamento, é preciso definir o que será feito e como será financiado. O resultado da eleição presidencial, portanto, será decisivo para a estratégia que o agro deverá adotar.

Negociar antes de janeiro

Na minha avaliação, o setor deve preparar suas prioridades desde já. Assim que o segundo turno definir o presidente, essa agenda precisa ser submetida à equipe econômica que conduzirá o próximo mandato. A conversa deve começar durante a transição, antes da posse.

O Ministério da Agricultura terá um papel fundamental. Entretanto, as propostas que exigem subsídios, garantias públicas ou novas despesas precisam ser discutidas com quem será responsável pelas contas do governo. Esperar janeiro para iniciar essa negociação pode significar chegar depois que outras demandas já tiverem ocupado o espaço disponível.

Não basta pedir uma renegociação ampla. É necessário identificar os produtores que precisam de atendimento e propor condições que permitam pagar a dívida sem inviabilizar a atividade. No seguro rural, o compromisso precisa incluir recursos previsíveis, para que o produtor consiga planejar a contratação.

O mesmo vale para o crédito. Anunciar financiamento pouco resolve se as exigências impedirem o acesso ou se o dinheiro chegar depois da época de plantar. A discussão com a equipe econômica deve considerar tanto o custo das medidas quanto seu funcionamento na prática.

Uma proposta bem preparada mostra quanto custa, de onde podem vir os recursos e qual problema pretende resolver. Também distingue o que depende de orçamento daquilo que pode avançar com procedimentos mais simples. Isso dá consistência à negociação e permite cobrar o que foi combinado.

A economia precisa ajudar

Essa conversa terá de alcançar a política econômica. O crédito subsidiado é necessário para muitos produtores, mas fica mais difícil ampliar seu alcance quando o custo geral do dinheiro permanece elevado. Quanto maior a diferença entre o juro de mercado e a taxa cobrada do produtor, maior tende a ser a necessidade de recursos públicos para sustentar o apoio.

Por isso, o agro também precisa cobrar uma condução das contas públicas que reduza incertezas e ajude a criar condições para juros menores. A dívida e o custo do financiamento fazem parte do mesmo problema que hoje limita a capacidade de investir no campo.

O que me preocupa é que o entusiasmo com a força da bancada gere uma expectativa de solução automática. O produtor não pode planejar sua safra apenas com base na proximidade entre seus representantes e o presidente.

Cabe à bancada transformar essa presença política em negociação e acompanhar a execução dos compromissos. Quem vencer encontrará um setor com necessidades urgentes. Para o produtor endividado, a eleição terá consequência concreta quando houver condições de reorganizar suas contas e continuar produzindo.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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