
A tribuna da ONU é uma das maiores vitrines que um presidente pode ocupar. Nesta terça-feira (22), Lula falou a representantes de outros países, mas sabia que suas palavras também chegariam ao Brasil. E escolheu assuntos que o eleitor brasileiro reconhece de imediato.
Ao dizer que o Brasil não cabe no “quintal de ninguém”, criticar a interferência externa em eleições e defender o controle nacional sobre recursos estratégicos, Lula apresentou uma posição diplomática.
Ao falar do Pix, das grandes empresas de tecnologia e da proteção das famílias contra as apostas, levou para o mesmo discurso temas do cotidiano. Citou ainda as terras raras, a Margem Equatorial e a necessidade de gerar valor no Brasil com nossas riquezas naturais.
Flávio Bolsonaro não aparece nominalmente nesta parte do discurso. Ainda assim, a mensagem política é perceptível.
Lula procurou associar sua imagem à defesa da soberania e deixar no ar uma pergunta para o eleitor: quem teria mais independência para representar os interesses brasileiros diante dos Estados Unidos?
É uma interpretação do discurso, não uma prova da intenção pessoal do presidente. Também não há motivo para tratar a crítica a pressões sobre o Pix como demonstração de que Flávio queira acabar com o sistema.
O que se pode observar é a escolha de símbolos fortes, capazes de circular muito além da reunião da ONU.
A resposta está, em parte, nas pesquisas. Na rodada da Quaest divulgada em setembro, Lula tinha 36% no primeiro turno e Flávio, 29%.
Numa simulação de segundo turno, os dois apareciam com 41%. A rejeição também era elevada para ambos: 53% para Lula e 55% para Flávio.
A mesma pesquisa apontava bases fiéis dos dois lados e dificuldade de conquistar eleitores fora delas.
Esses números não permitem dizer que o discurso mudou votos. Mostram, porém, por que uma fala desse tipo interessa ao presidente.
Quando dois candidatos têm apoios consolidados e rejeições altas, cada um tenta convencer quem ainda hesita — inclusive o eleitor que poderá escolher um deles sem entusiasmo.
É aí que entra uma dimensão que a conta eleitoral, sozinha, não explica. O voto também expressa pertencimento, confiança e receio.
Para uma pessoa, a defesa da soberania pode significar orgulho nacional; para outra, o Pix representa um serviço que funciona; para outra, o que importa é saber se o presidente consegue dialogar com o mundo sem subordinar o país.
Lula reuniu esses sentimentos numa mesma fala e se apresentou como alguém experiente para defendê-los.
Mas há um limite para essa estratégia. O eleitor que desaprova o governo pode ouvir tudo isso e continuar preocupado com sua renda, com a segurança ou com os resultados dos últimos anos.
Flávio, por sua vez, tentará convencer esse mesmo eleitor de que a continuidade de Lula representa um risco maior.
A meu ver, esse foi o sentido político mais importante do discurso na ONU. Lula usou uma ocasião legítima para expor posições brasileiras e, ao mesmo tempo, oferecer ao eleitor uma imagem de liderança.
Na reta final de uma disputa apertada, essa imagem pode ajudar. Se será suficiente para superar o desgaste do governo e a rejeição ao presidente, só a campanha, e depois a urna, dirá.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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