
A contagem regressiva começou. A partir de 3 de setembro, caso não haja uma reversão, o Brasil ficará impedido de exportar para a União Europeia uma ampla lista de produtos de origem animal. A restrição alcança bovinos, equinos, aves, produtos de aquicultura, mel e envoltórios naturais utilizados pela indústria.
A justificativa formal é técnica. A Comissão Europeia afirma não ter recebido garantias suficientes de que o Brasil cumpre as novas regras que proíbem o uso de antimicrobianos como promotores de crescimento e daqueles reservados ao tratamento de determinadas infecções em seres humanos.
Sem essa comprovação, o país foi retirado da lista de fornecedores autorizados. A decisão consta do Regulamento de Execução 2026/1189. Mas nenhuma decisão comercial dessa dimensão acontece em um vazio político.
Os agricultores europeus vêm protestando há anos contra a concorrência de produtos importados. Alegam que são submetidos a exigências ambientais, sanitárias e trabalhistas cada vez mais rigorosas, enquanto países de fora do bloco teriam custos menores.
Esse movimento alimentou uma resistência intensa ao acordo entre União Europeia e Mercosul e fortaleceu as pressões por novas barreiras comerciais.
O argumento europeu merece ser ouvido. Todo país tem o direito de exigir segurança sanitária dos alimentos que importa. O que precisa ser discutido é se a exigência está sendo aplicada exclusivamente como instrumento de saúde pública ou se passou a funcionar também como mecanismo de proteção econômica. Essa diferença é decisiva.
A Europa atravessa, justamente agora, uma combinação severa de calor, seca e incêndios. O oeste europeu registrou o junho mais quente de sua série histórica, enquanto várias regiões enfrentam umidade do solo excepcionalmente baixa e rios com vazões muito inferiores à média.
Em julho e no início de agosto, partes da França, Alemanha, Espanha, Reino Unido, Itália e outros países apresentaram condições de seca consideradas críticas. O calor prejudica pastagens, reduz a disponibilidade de água, encarece a alimentação dos animais e diminui a produtividade de rebanhos e lavouras. Os dados são do Observatório Europeu da Seca.
O El Niño intensifica a preocupação global com eventos extremos, embora não seja cientificamente correto atribuir somente a ele toda a seca europeia. O fenômeno atua em conjunto com padrões atmosféricos regionais e com o aquecimento do planeta.
Independentemente da causa, o efeito econômico já está colocado: produzir alimentos na Europa está ficando mais difícil e mais caro.
É aqui que a decisão europeia começa a enfrentar a realidade. O Brasil é um dos maiores, mais competitivos e mais confiáveis fornecedores de proteína animal do mundo. Retirar esse fornecedor do mercado europeu, justamente quando a produção local enfrenta perdas climáticas, significa reduzir alternativas de abastecimento no pior momento possível.
Menor oferta e custos maiores quase sempre terminam no mesmo lugar: preços mais altos para o consumidor.
A Europa poderá proteger parte de seus produtores da concorrência brasileira, mas corre o risco de transferir a conta para milhões de famílias. E a inflação de alimentos não permanece restrita ao supermercado. Ela reduz o poder de compra, pressiona os juros, aumenta a insatisfação social e derruba a popularidade dos governos.
A barreira que hoje parece conveniente ao produtor europeu pode amanhã se tornar um problema político para os próprios líderes do bloco.
Tecnicamente, existe possibilidade de reversão caso o Brasil apresente as garantias exigidas e a Comissão Europeia reconheça a equivalência dos controles brasileiros. O governo e o setor produtivo precisam trabalhar com urgência, transparência e documentação técnica.
O agravamento da seca não elimina as exigências sanitárias, nem deveria eliminá-las. Mas pode aumentar a disposição política para acelerar uma solução.
Importadores, distribuidores, restaurantes e indústrias europeias também serão atingidos. À medida que os estoques diminuírem e os preços avançarem, esses setores deverão pressionar Bruxelas com uma pergunta muito simples: quem substituirá o Brasil com a mesma escala, regularidade e competitividade? Essa resposta não é fácil.
O Brasil não deve pedir tratamento privilegiado. Deve comprovar que sua produção atende às normas exigidas, fortalecer os controles sobre antimicrobianos e oferecer rastreabilidade e segurança.
A Europa, por sua vez, precisa decidir se deseja uma política sanitária baseada em critérios técnicos ou uma barreira comercial influenciada pelo protecionismo.
Fechar o mercado ao Brasil em meio a uma crise climática pode parecer uma vitória política de curto prazo. Mas, se a oferta europeia cair e os preços dos alimentos dispararem, essa vitória rapidamente se transformará em derrota.
Até 3 de setembro, ainda existe espaço para o diálogo e para uma solução técnica. Depois disso, a realidade do mercado dará seu veredito. E a seca não costuma respeitar decisões burocráticas

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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