
Ao longo de mais de vinte anos analisando economia, política e agronegócio, aprendi que os maiores riscos quase nunca surgem onde estamos olhando.
Durante décadas, bastava acompanhar o clima, a oferta, a demanda e os preços das commodities. Hoje, essa lógica já não explica, sozinha, o comportamento dos mercados. Vivemos uma nova realidade.
Uma decisão política em outro continente, um conflito militar, uma disputa comercial ou uma inovação tecnológica podem alterar, em poucos dias, o custo de produção, o preço dos alimentos, o acesso ao crédito e a rentabilidade de uma safra. É um mundo muito mais conectado e, por isso mesmo, muito mais vulnerável.
Uma guerra pode elevar o preço do petróleo. O petróleo encarece fertilizantes. Os fertilizantes aumentam o custo da produção. A inflação ressurge. Os juros permanecem elevados. O crédito fica mais caro. E, quando essa sequência chega à fazenda, a margem do produtor diminui. Esse é o novo ambiente de negócios da agropecuária mundial.
Organismos internacionais vêm alertando que conflitos geopolíticos, energia, fertilizantes, mudanças climáticas e desaceleração econômica tendem a ampliar a volatilidade dos mercados agrícolas nos próximos anos.
Na minha avaliação, o maior erro que um produtor pode cometer é acreditar que estamos diante de uma crise passageira. Não estamos.
Estamos entrando em um período em que a incerteza fará parte da rotina. As oscilações serão mais frequentes. Os ciclos poderão ser mais curtos. As decisões precisarão ser mais rápidas. E administrar riscos passará a ser tão importante quanto produzir bem.
A fazenda continua no mesmo lugar. Mas o negócio ficou muito maior. Hoje o produtor administra, ao mesmo tempo, risco climático, financeiro, cambial, geopolítico, regulatório, logístico e tecnológico.
Produzir continua sendo essencial. Mas já não basta. Quem compreender esse novo ambiente tomará decisões mais consistentes sobre investimentos, endividamento, comercialização, armazenagem e formação de caixa.
Gostaria de compartilhar uma reflexão que considero uma das mais importantes dos últimos anos. A humanidade jamais deixará de precisar de alimentos. Essa continuará sendo uma das atividades mais estratégicas da economia. O que está mudando é a forma como o mercado atribui valor.
Cada vez mais, o capital mundial se concentra em empresas de tecnologia, inteligência artificial, dados e infraestrutura digital. Em 2025, aproximadamente 61% de todo o investimento global de venture capital foi destinado a empresas de inteligência artificial, evidenciando a velocidade com que recursos financeiros migram para setores intensivos em inovação.
Isso não diminui a importância do agronegócio, ao contrário, aumenta a responsabilidade de incorporar tecnologia, inteligência artificial, informação e gestão ao processo produtivo.
O alimento continuará indispensável, mas a riqueza será cada vez mais capturada por quem conseguir agregar conhecimento ao que produz.
O produtor que enxergar sua propriedade apenas como uma fábrica de commodities poderá capturar uma parcela menor do valor gerado pela economia.
Já aquele que utilizar tecnologia para produzir melhor, reduzir custos, aumentar eficiência, melhorar a gestão e transformar informação em estratégia estará construindo um patrimônio muito mais sólido.
Este é o primeiro artigo de uma série em que pretendo discutir, de forma simples e objetiva, as grandes transformações que já estão redesenhando a economia mundial e seus reflexos sobre a agropecuária.
Não escrevo estas reflexões para tentar adivinhar o futuro. Escrevo porque acredito que a principal missão de quem analisa economia é ajudar produtores e empresários a se prepararem antes que as mudanças cheguem.
Depois de mais de duas décadas acompanhando o agronegócio brasileiro, aprendi que os melhores resultados quase nunca pertencem aos que reagem mais rápido.
Pertencem aos que conseguem enxergar mais longe. E talvez esta seja a principal reflexão que gostaria de deixar. A agricultura continuará alimentando o mundo, mas o sucesso da próxima década dependerá, cada vez mais, da capacidade de transformar conhecimento em valor.
Quem compreender essa mudança estará preparado para um mundo novo. Quem insistir em olhar apenas para dentro da porteira poderá descobrir, tarde demais, que o mercado mudou muito além dela.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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