“O campo brasileiro já opera como uma indústria a céu aberto”

A integração entre agropecuária e indústria, os impactos da geopolítica sobre as cadeias produtivas, os desafios do financiamento e a construção de uma visão de longo prazo para o Brasil estarão no centro dos debates do 25º Congresso Brasileiro do Agronegócio (CBA).

Nesta entrevista, o presidente da ABAG, Ingo Plöger, explica a escolha do tema “Agro & Indústria”, analisa o cenário macroeconômico e defende que o país tem condições de ampliar sua produção de forma cada vez mais eficiente e sustentável.

Por que o tema “Agro & Indústria” foi escolhido para o 25º Congresso Brasileiro do Agronegócio?

O tema faz referência a uma realidade de transformação da economia brasileira. A nossa agricultura tropical tem uma dinâmica muito particular. Com um fator de fotossíntese três vezes maior do que o hemisfério norte, o campo brasileiro opera em janelas muito curtas, com duas, três safras por ano. Isso nos aproximou bastante da lógica industrial. Hoje, a realidade é que o campo funciona como uma indústria a céu aberto. Temos mais investimentos ali do que em galpões industriais fechados.

Como essa dinâmica diferencia o Brasil dos demais grandes players agrícolas?

Quando você tem três safras, está trabalhando próximo do just-in-time, a mesma lógica da indústria. Uma safra empurra a outra, os insumos precisam chegar no tempo certo, a logística não pode falhar. Isso não existe nos Estados Unidos, que planta soja com uma safra por ano, nem na Rússia, que produz trigo. É uma especificidade brasileira e, quando a indústria percebe que pode suprir as nossas dores, essa integração entre agro e indústria passa a funcionar como um único sistema.

Isso posiciona o Brasil como referência também para outros países?

Exatamente. A África tropical, o sul da Índia, a Indonésia, a Malásia, o norte da Austrália, todos os países com característica tropical estão olhando para o Brasil e dizendo: “somos muito parecidos com vocês. Um dia queremos chegar ao mesmo patamar”. Isso é um farol, um sinalizador. Quando a indústria começa a instalar seus centros de competência aqui, é o melhor sinal de que está ocorrendo uma transformação muito relevante no Brasil.

Quais serão os principais debates do Congresso deste ano?

Além desta integração, teremos um painel dedicado à geopolítica e seus impactos nas cadeias produtivas, outro dedicado ao ambiente de investimentos e aos motivos que levam investidores a continuar apostando no Brasil mesmo em um cenário desafiador. Teremos ainda um painel sobre financiamento e garantias de crédito, além de um especial com propostas aos candidatos à presidência da República, para entender como quem vai governar o país a partir de 2027 enxerga o agronegócio.

Na sua opinião, quais são as prioridades do setor para o longo prazo?

O agro precisa construir sua visão 2050, assim como a indústria já fez. A CNI [Confederação Nacional da Indústria], por exemplo, lançou o documento Indústria 2050. Quando você pergunta ao brasileiro o que ele imagina do país daqui a 30 anos, três vocações aparecem com muita clareza: a alimentar, a energética e a de sustentabilidade. Ninguém tem dúvida de que o Brasil tem uma contribuição alimentar gigantesca a fazer. Na parte energética, somos avançados com os biocombustíveis. E na sustentabilidade, a consciência sobre Amazônia e mata nativa está muito presente na sociedade, mesmo que de forma imperfeita.

O Brasil consegue crescer sua produção sem avançar sobre áreas preservadas?

Sem sombra de dúvida. O Brasil tem todas as condições de ampliar sua produção agropecuária sem avançar sobre áreas preservadas. O principal motor desse crescimento é o ganho de produtividade. Nas últimas décadas, o agro brasileiro mostrou que é possível produzir mais por hectare por meio de tecnologia, inovação, manejo, integração entre atividades. Esse é o caminho que continuará impulsionando a expansão da produção.

Além disso, temos espaço para ampliar a oferta de alimentos, fibras e energia renovável com a recuperação de áreas degradadas e o fortalecimento de cadeias como a dos biocombustíveis, sem necessidade de converter novas áreas de vegetação nativa. Para que esse potencial se concretize, será fundamental ampliar os investimentos em infraestrutura e logística, que acompanham naturalmente o crescimento da atividade econômica e tornam o sistema mais eficiente e competitivo.

Quais regiões devem liderar esse crescimento?

Há seis estados que chamo de ‘Pumas Tropicais’: Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Paraná, Tocantins e parte do Piauí. Eles estão crescendo a índices de PIB [Produto Interno Bruto] superiores aos da China. São regiões com maioria de cidades abaixo de 400 mil habitantes, o que reflete uma integração muito forte entre o urbano e o rural. E há uma escassez de mão de obra que está, ao mesmo tempo, sendo a maior reclamação do empresariado e o maior motor de crescimento da classe média local. O empreendedorismo supera o assistencialismo e isso é visível no consumo e nos hábitos dessas cidades. Vale mencionar que o assistencialismo é necessário, ninguém é contra isso, mas o que vemos nessas cidades é de fato o empreender como vertente principal.

Como o atual momento geopolítico afeta o agro brasileiro?

De maneira muito imediata, porque o agro opera em cadeias produtivas globais. Se um insumo que vem dos Emirados Árabes tem a entrega interrompida, afeta alguma área nossa diretamente. O custo do frete da China, que era de 500 dólares por container e foi para 2.500 dólares, afeta o agro. Qualquer interferência num sistema tão interligado gera impactos em cadeia. A Senadora Teresa Cristina [ex-ministra da Agricultura] chama isso de tempestade perfeita. E nós brasileiros ainda conseguimos adicionar para deixa-la mega perfeita, com juros altos, regras trabalhistas engessadas e um ano eleitoral que aumenta o risco e traz imprevisibilidade.

Você mencionou os juros. Qual é a sua avaliação da política do Banco Central?

É minha maior preocupação neste momento, zero a zero, antes de tudo. Com 14,25% de Selic, qualquer spread colocado em cima torna praticamente qualquer atividade econômica inviável. E o Banco Central, nas suas últimas comunicações, já sinalizou que estamos falando mais de 2028 do que de 2026 ou 2027 para um alívio. Isso mata a esperança. E quando você mata a esperança, o trilho da economia brasileira fica muito arriscado.

Por que você discorda da abordagem do Banco Central?

Porque parte da nossa inflação é de oferta, não de demanda. Se o barril de petróleo está a 120 dólares por pressão geopolítica, subir juros não vai fazer aquele preço cair. Os outros blocos econômicos entendem isso e fazem políticas setoriais para os segmentos mais afetados. O Brasil sobe a taxa de juros em bloco. Além disso, trabalhamos com inflação total, enquanto outros países usam o núcleo da inflação. Se trabalhássemos com núcleo, estaríamos em 4,5%, não em 5,5%. No agro, entendemos muito bem dosimetria, quando você coloca calcário em excesso, prejudica o solo. A dosimetria do Banco Central hoje é tóxica. Chega a alimentar a própria inflação.

Como isso se traduz no dia a dia do produtor?

Há investimentos que não podem ser adiados. Eu não posso deixar de colocar insumo na terra por dois anos. Vou sentir o impacto na produtividade. Posso adiar a compra de um implemento agrícola? Posso, mas a manutenção vai encarecer minha operação lá na frente. Quem paga mais caro por isso não são os mais ricos, são os mais pobres. O endividamento das pessoas de menor renda no Brasil, com as taxas que temos hoje, é uma bomba-relógio. Passo por cidades onde 20%, 30% dos pontos comerciais estão fechados. Isso é fora de uma realidade econômica. O Banco Central está absolutamente desconectado.

25º Congresso Brasileiro do Agronegócio

  • Formato: presencial e online com tradução simultânea para o inglês
  • Tema: Agro & Indústria Integrando e Transformando o Brasil
  • Data: 10 de agosto de 2026
  • Horário: das 9h às 18h
  • Local: Sheraton WTC São Paulo Hotel
  • Endereço: Av. das Nações Unidas, 12.559
  • Informações e inscrições: pelo site oficial do evento (CLIQUE AQUI)

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