
Durante boa parte dos últimos vinte anos, as commodities viveram um cenário quase perfeito. Juros baixos, abundância de liquidez e o crescimento acelerado da China atraíram bilhões de dólares para mercados ligados a matérias-primas.
Foi o período do chamado superciclo das commodities.
A urbanização chinesa elevou o consumo de energia, minério, alimentos e infraestrutura em uma escala inédita. Os preços responderam com fortes altas e o capital financeiro acompanhou esse movimento.
Mas o ambiente que impulsionou esse ciclo começa a mudar.
A China continuará comprando grandes volumes de soja, milho e carnes. A diferença é que seu ritmo de expansão já não é o mesmo das últimas décadas.
Ao mesmo tempo, surge um novo pólo de atração para o capital global: a inteligência artificial.
Data centers, semicondutores, infraestrutura digital, geração de energia e empresas de tecnologia estão absorvendo investimentos de centenas de bilhões de dólares. Para muitos investidores, a IA representa hoje o que a China representou para as commodities no início dos anos 2000.
O dinheiro está mudando de endereço.
E essa mudança importa para o agronegócio.
Quando os juros sobem, a renda fixa volta a competir fortemente pelo capital. Quando surge um setor capaz de prometer crescimento exponencial, essa disputa se intensifica ainda mais.
As commodities passam a concorrer não apenas com os títulos públicos, mas também com um dos maiores ciclos de investimento tecnológico da história.
Nada disso significa queda da demanda por alimentos.
A população mundial continua crescendo, o consumo de proteína animal avança e a necessidade de produção agrícola permanece intacta.
O que pode mudar é a formação dos preços.
Muitos produtores observam apenas a oferta e a demanda física. Porém, os mercados agrícolas também são fortemente influenciados pelo fluxo financeiro.
Na soja, por exemplo, o volume negociado nos mercados futuros supera várias vezes o volume físico efetivamente produzido. Fundos, bancos e investidores movimentam recursos diariamente em busca de rentabilidade, proteção ou especulação.
Nem sempre é a safra que move o preço. Muitas vezes é o dinheiro.
Quando os investidores enxergam crescimento econômico, inflação ou escassez futura, aumentam posições e impulsionam as cotações.
Quando encontram juros elevados ou oportunidades mais atraentes em outros setores, reduzem exposição e pressionam os preços.
Existe ainda um segundo efeito que merece atenção.
Os mesmos juros elevados que atraem capital para a renda fixa também encarecem o financiamento da atividade agrícola.
O produtor sente isso diretamente no custo do crédito, nas renegociações de dívidas e na redução das margens financeiras. Em um setor que depende intensamente de capital para custeio, investimento e armazenagem, juros mais altos significam maior pressão sobre o caixa.
Nos últimos anos, essa realidade já começou a aparecer. O aumento do endividamento em diversas regiões produtoras mostra que o problema não é apenas produtivo. É também financeiro.
O produtor não compete apenas por mercados. Compete também por capital.
O mundo não caminha para uma queda da demanda por alimentos.
A questão é outra.
O capital que ajudou a impulsionar o ciclo das commodities durante décadas agora encontra concorrentes poderosos nos juros elevados e na inteligência artificial.
Isso pode significar um mercado menos dependente da liquidez global e mais dependente dos fundamentos agrícolas.
A consequência, produtividade, eficiência, gestão de risco e controle de custos tendem a se tornar ainda mais importantes.
A comida continuará indispensável.
A grande questão é se o capital continuará chegando ao campo com a mesma intensidade do passado.
Nos próximos anos, o produtor não disputará apenas mercados. Disputará também o dinheiro necessário para produzir.
E essa pode ser uma das mudanças estruturais mais importantes para o agronegócio na próxima década.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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