Poupança rural encolhe quando o campo mais precisa de crédito

Crédito rural, dívidas rurais, endividamento no campo
Foto: Magnific

Antes dos números, é preciso esclarecer o que é a poupança rural.

Ela não é um fundo público nem uma reserva formada apenas pelo dinheiro dos produtores. É uma modalidade de caderneta oferecida por instituições autorizadas.

O Banco do Brasil é, historicamente, o principal captador e o nome mais associado à modalidade, por meio da Poupança Ouro. Portanto, a percepção de que ela vem das cadernetas do BB está, em grande parte, correta.

Mas não é exclusiva do banco. Outras instituições autorizadas, inclusive cooperativas de crédito, também podem captar esses depósitos.

Uma poupança destinada ao campo

A diferença está no destino do dinheiro.

Na poupança vinculada ao Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo, o SBPE, parte dos recursos financia imóveis. Na modalidade rural, uma parcela deve ser aplicada em operações de crédito para o campo.

Desde uma mudança promovida pelo Conselho Monetário Nacional em 2025, esse direcionamento obrigatório passou de 65% para 70%.

Assim, ela ajuda a financiar custeio, investimento e comercialização da produção.

O dinheiro está saindo

Em agosto, a poupança rural registrou saques líquidos de R$ 1,06 bilhão, segundo o Banco Central. As retiradas superaram os depósitos.

Cada real sacado não significa, imediatamente, um real a menos emprestado. Ainda assim, a saída reduz, na margem, uma das bases tradicionais do crédito rural.

A explicação é conhecida. Com a Selic em 14% ao ano, aplicações ligadas ao CDI oferecem remuneração mais atraente.

O poupador migra, o recurso direcionado perde espaço e o produtor depende mais do dinheiro captado a taxas de mercado.

Menos recursos e mais risco

A retração acontece no pior momento possível.

A inadimplência do crédito rural para pessoas físicas chegou a 8,8% em julho. Nas operações contratadas a taxas de mercado, atingiu 15,5%.

Quando a inadimplência sobe, o banco cobra mais e seleciona mais. Exige garantias adicionais, reduz limites e concentra os financiamentos nos produtores com maior capacidade patrimonial.

Forma-se um círculo perigoso: a margem ruim eleva a inadimplência; a inadimplência encarece o crédito; e o crédito caro comprime a margem seguinte.

O produtor nem sempre deixa de plantar. Muitas vezes, reduz a adubação, posterga máquinas, corta tecnologia e assume maior risco produtivo.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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