O agro sustenta o PIB. Quem sustenta o produtor?

Senar produtor
Foto: Pixabay

Os números do PIB brasileiro divulgados pelo IBGE contam duas histórias. A primeira é conhecida: a economia continua crescendo. A segunda merece muito mais atenção: cresce cada vez mais devagar e encontra novamente no campo uma de suas principais forças de sustentação.

No segundo trimestre de 2026, o PIB brasileiro avançou 0,5% em relação aos três primeiros meses do ano. É crescimento, sem dúvida. Mas representa uma desaceleração importante diante do resultado do trimestre anterior.

Quando abrimos esse número, aparece o contraste. A indústria praticamente parou: cresceu 0,1%. Os serviços avançaram apenas 0,2%. A agropecuária cresceu 2,8%. Não é detalhe estatístico. É uma diferença enorme de velocidade entre os setores da economia.

Na comparação com o segundo trimestre do ano passado, a diferença fica ainda mais evidente. O PIB brasileiro cresceu 2,0%. A indústria avançou 1,5%. Os serviços, também 1,5%.

A agropecuária cresceu 6,8%. No primeiro semestre, enquanto a economia brasileira avançou 1,9%, a agropecuária cresceu 3,6%. Soja, café e pecuária tiveram participação importante nesse desempenho.

É preciso, entretanto, tomar cuidado com a interpretação. Não podemos simplesmente retirar os 2,8% da agropecuária dos 0,5% do PIB, porque cada setor possui peso diferente na economia.

Uma aproximação pela participação direta da agropecuária indica que, sem esse desempenho, o PIB provavelmente ainda teria ficado positivo, mas muito mais próximo da estagnação.

Portanto, não seria correto dizer que o Brasil estaria necessariamente em recessão sem o campo. Mas é possível afirmar algo importante: sem o agro, o crescimento brasileiro teria sido ainda mais fraco.

Por trás dos 0,5%, alguns sinais preocupantes

O resultado agregado esconde movimentos que merecem atenção. O consumo das famílias caiu 0,4% no trimestre. As exportações recuaram 0,8%. A indústria de transformação caiu 0,4%. A construção também recuou 0,4%.

São sinais de uma economia que começa a sentir com maior intensidade o peso dos juros, do crédito caro e do elevado endividamento de famílias e empresas. E é justamente aí que aparece uma das maiores contradições brasileiras.

O agro entrega, mas recebe o quê em troca?

O agronegócio produz alimentos, gera divisas, sustenta o saldo comercial, movimenta milhares de municípios e demanda máquinas, fertilizantes, transporte, armazenagem, tecnologia e serviços.

Quando a economia perde força, frequentemente é o campo que aparece para melhorar a fotografia do PIB. Mas existe uma pergunta que precisa ser feita: o Brasil oferece ao produtor a mesma segurança que recebe dele?

Os números mostram uma realidade preocupante. No primeiro trimestre de 2026, o agronegócio registrou 474 pedidos de recuperação judicial, considerando produtores rurais pessoas físicas e jurídicas e empresas relacionadas à cadeia.

Foi um crescimento de 21,9% em relação ao mesmo período de 2025.

A inadimplência dos produtores rurais chegou a 8,8%. Como explicar que um setor capaz de crescer 6,8% e ajudar a sustentar a economia brasileira conviva, ao mesmo tempo, com produtores entrando em recuperação judicial? A resposta está numa diferença que o Brasil ainda insiste em ignorar.

Produção recorde não significa produtor rico

Uma grande safra não significa necessariamente grande rentabilidade. O produtor pode colher mais e ganhar menos. Pode aumentar sua produtividade e continuar endividado.

Pode ajudar o PIB brasileiro a crescer e, simultaneamente, descobrir que sua própria atividade não gera caixa suficiente para pagar as dívidas acumuladas.

Depois de problemas climáticos em várias regiões, custos elevados, margens comprimidas e juros altos, uma parcela do setor entrou em um perigoso processo de descapitalização.

E existe um agravante. O crédito está para uma atividade econômica assim como o oxigênio está para o organismo.

Quando o crédito encarece, a atividade começa a perder capacidade de respirar. Quando ele desaparece, ela sufoca.

Não estamos falando em perdão de dívida

É preciso deixar isso muito claro. Defender condições para que produtores economicamente viáveis atravessem essa crise não significa defender perdão indiscriminado de dívidas.

Quem administrou mal precisa responder pelas decisões que tomou. Mas existe enorme diferença entre um produtor inviável e aquele que foi atingido por uma combinação excepcional de clima, preços, custos e juros durante sucessivas safras.

Esse produtor precisa de prazo. Precisa de seguro rural eficiente. Precisa de instrumentos de gestão de risco. E precisa, principalmente, de crédito compatível com a rentabilidade de sua atividade.

Porque permitir que produtores eficientes sejam destruídos financeiramente para depois descobrir que eles faziam parte da estrutura que sustenta o PIB, as exportações e a segurança alimentar brasileira não é política econômica. É falta de visão.

O Brasil comemora o resultado e abandona quem o produz

Existe um paradoxo que os números do PIB deixam cada vez mais evidente. O Brasil comemora quando o agro ajuda o PIB.

Comemora a safra, as exportações, o saldo da balança comercial, os dólares que entram no país e a produtividade. Mas, quando parte dos produtores enfrenta dificuldades financeiras, as soluções chegam tarde, são burocráticas ou simplesmente não chegam.

O agronegócio brasileiro jamais recebeu, na mesma proporção, a segurança e a previsibilidade correspondentes àquilo que entrega ao país. E talvez os números divulgados agora sejam uma oportunidade para mudar essa discussão.

O campo não pode ser lembrado apenas quando o Brasil precisa de alimentos, exportações, dólares e crescimento econômico.

Porque os produtores que hoje ajudam a sustentar o PIB precisam continuar existindo para produzir a próxima safra. E os números deixam uma pergunta que Brasília deveria responder:

Se o agro continua ajudando a carregar a economia brasileira, quem vai ajudar a carregar o agro quando ele precisa?

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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