
A China pediu para participar das consultas abertas pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra as novas tarifas impostas pelos Estados Unidos.
A notícia tem peso, mas precisa ser compreendida com cuidado.
Pequim não se tornou co-autora da ação brasileira. Alegou possuir “interesse comercial substancial” porque uma das medidas questionadas também atinge praticamente todas as exportações chinesas para o mercado norte-americano.
Formalmente, a China pediu para entrar na fase de consultas. Mesmo assim, o movimento tem uma importância política que vai muito além dos documentos diplomáticos.
O Brasil questiona duas sobretaxas aplicadas pelo governo de Donald Trump com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana.
A primeira adicionou 25% sobre determinados produtos brasileiros, após uma investigação envolvendo temas tão diferentes quanto Pix, etanol, propriedade intelectual, combate à corrupção e desmatamento.
A segunda estabeleceu uma tarifa adicional de 12,5%, sob o argumento de que o Brasil não possui mecanismos considerados suficientes para impedir a importação de produtos relacionados ao trabalho forçado.
Quando as medidas se acumulam, alguns produtos brasileiros enfrentam uma sobretaxa de 37,5%.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), 23,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos foram alcançadas. Máquinas, equipamentos, madeiras, óleos, calçados, móveis e confecções estão entre os setores atingidos. Café, carnes, suco de laranja, aeronaves e boa parte da celulose ficaram de fora.
O Brasil sustenta que Washington viola princípios básicos do comércio internacional ao aplicar punições unilateralmente e ultrapassar os limites tarifários assumidos na OMC.
Em resumo, os Estados Unidos se colocaram na posição de acusador, juiz e executor da sentença.
A China tem um interesse próprio e bastante concreto.
A investigação norte-americana sobre trabalho forçado alcançou 60 economias. Na prática, os Estados Unidos procuram obrigar seus parceiros a controlar produtos importados de terceiros países, especialmente mercadorias e insumos de origem chinesa.
O combate ao trabalho forçado é legítimo. O problema aparece quando uma questão de direitos humanos também passa a ser utilizada como instrumento de pressão comercial e alinhamento geopolítico.
A China percebeu que o alvo não era apenas o Brasil. Era também a presença de suas cadeias produtivas em praticamente todo o mundo.
Pequim, portanto, não está defendendo o Brasil. Está defendendo a China. Mas, neste momento, os interesses dos dois países se encontram.
A participação chinesa fortalece a posição brasileira porque mostra que o problema não é apenas bilateral.
Quando um país é atingido isoladamente, a pressão dos Estados Unidos é enorme. O tamanho do mercado norte-americano, a força do dólar e a influência de Washington sobre o sistema financeiro fazem com que poucos governos consigam resistir sozinhos.
A situação muda quando dezenas de economias enfrentam medidas semelhantes.
A tarifa funciona melhor quando divide e isola. Quando atinge 60 países, transforma vítimas dispersas em uma frente de interesses comuns.
Esse talvez seja o maior erro da estratégia de Trump. Ao utilizar tarifas contra adversários, aliados e parceiros comerciais, ele começa a criar justamente a reação que pretendia evitar.
Há, porém, um perigo evidente.
Washington poderá apresentar essa aproximação como prova de que o Brasil escolheu o lado da China. Uma disputa legítima contra tarifas abusivas pode ser transformada em mais um capítulo da guerra entre as duas potências.
Isso não interessa ao Brasil.
A China é o principal destino das exportações do agronegócio brasileiro. Os Estados Unidos, por outro lado, continuam fundamentais para produtos de maior valor agregado, investimentos, tecnologia, financiamento e cadeias industriais.
Não podemos trocar uma dependência pela outra.
A China também utiliza seu mercado, restrições sanitárias, subsídios e controles sobre produtos estratégicos como instrumentos de pressão. Por isso, o Brasil deve aceitar o reforço chinês na OMC sem transformar essa convergência jurídica em alinhamento político automático.
Trump ainda possui enorme poder para causar prejuízos por meio das tarifas. Seria precipitado afirmar que essa arma deixou de funcionar.
O que começa a desaparecer é a liberdade com que o presidente norte-americano utilizava esse instrumento.
Depois que a Suprema Corte decidiu que a legislação de emergência econômica não autorizava a imposição de tarifas generalizadas, o governo precisou buscar outros caminhos. O processo ficou mais lento, mais vulnerável a contestações e politicamente mais caro.
Além disso, a tarifa passou a ser usada para tudo: comércio, imigração, segurança, trabalho forçado e alinhamento político.
A escalada contra o Irã reforça essa tendência. Trump criou um mecanismo que permite punir com tarifas países que mantenham determinadas relações comerciais com Teerã. É a tentativa de fazer a legislação norte-americana ultrapassar suas fronteiras e determinar com quem os outros países podem negociar.
Mas uma ameaça repetida muitas vezes perde o efeito surpresa. E uma arma utilizada contra todos acaba aproximando aqueles que foram atingidos.
A melhor resposta brasileira não é aderir a uma frente anti americana. Também não é aceitar silenciosamente qualquer exigência de Washington.
O caminho está no meio: fortalecer a reclamação na OMC, ampliar o diálogo com os países atingidos, manter as negociações bilaterais e preservar os mercados norte-americano e chinês.
A participação da China mostra que a estratégia tarifária de Trump começa a encontrar limites. Os Estados Unidos ainda conseguem provocar perdas, gerar incerteza e pressionar governos. Mas já não fazem isso com a mesma velocidade, liberdade e capacidade de isolamento.
Ao tarifar o mundo, Trump pode estar conseguindo exatamente o contrário do que pretendia: unir o mundo contra suas tarifas.
E, para o Brasil, a regra deve ser clara: boa política externa não escolhe dono. Escolhe o interesse nacional.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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