Como a geopolítica impacta a competitividade do agro

Em um cenário em que decisões políticas, comerciais e regulatórias atravessam fronteiras com rapidez, compreender o ambiente internacional tornou-se parte da estratégia de qualquer empresa que deseja ampliar sua presença global.

Nesta entrevista, o Embaixador do Brasil no Marrocos, Alexandre Parola, membro do Conselho Estratégico da ABAG e painelista do 25º Congresso Brasileiro do Agronegócio (CBA), analisa como a geopolítica está redesenhando o comércio internacional e os desafios que esse novo contexto impõe ao Brasil como uma das principais potências agroalimentares e energéticas do mundo.

1. O Conselho Estratégico da ABAG tem observado que o mundo vive uma fase de instabilidade estrutural, não apenas uma sucessão de crises conjunturais. Na sua visão, quais são as principais características desse novo cenário geopolítico?

Concordo com o diagnóstico do Conselho. Mais do que uma sucessão de crises, estamos vivendo uma mudança de época na ordem internacional. Durante décadas, prevaleceu a expectativa de que a expansão do comércio, dos investimentos e das cadeias globais de valor produziria um ambiente internacional mais integrado e previsível. Hoje, observamos um movimento em sentido inverso: a geopolítica voltou a ocupar o centro das decisões econômicas.

Destacaria quatro transformações principais.

A primeira é a fragmentação da governança internacional. O sistema multilateral continua essencial, mas já não exerce, sozinho, a capacidade de coordenação que caracterizou o período posterior à Guerra Fria. Ao seu lado, multiplicam-se iniciativas regionais, acordos plurilaterais e mecanismos voltados para interesses específicos. Soma-se a isso a crescente integração entre segurança e economia. Comércio, tecnologia, energia, alimentos e infraestrutura passaram a ser considerados ativos estratégicos. Decisões econômicas são cada vez mais influenciadas por preocupações de segurança nacional, e instrumentos comerciais tornaram-se parte do repertório da competição entre Estados.

Em terceiro lugar, ganha força a reconfiguração das cadeias globais de valor. Empresas e governos procuram reduzir dependências consideradas críticas, diversificando fornecedores e aproximando a produção de parceiros vistos como confiáveis. Eficiência continua importante, mas deixou de ser o único critério de organização das cadeias produtivas.

Por fim, a competição tecnológica tornou-se um dos principais domínios da política internacional. A disputa pela liderança em inovação, inteligência artificial, biotecnologia e infraestrutura digital transcende o setor tecnológico e alcança atividades como a agricultura, cuja competitividade dependerá cada vez mais da capacidade de incorporar conhecimento e inovação.
O resultado é um ambiente em que decisões tomadas em Washington, Bruxelas ou Pequim, por razões estratégicas, repercutem rapidamente sobre o agronegócio brasileiro. A geopolítica deixou de ser pano de fundo da economia internacional. Ela passou a moldar, de forma direta, as condições de acesso a mercados, de investimento e de competitividade.

2. O Brasil se consolidou como um fornecedor estratégico de alimentos para o mundo. Ao mesmo tempo em que isso amplia nossa relevância, também aumenta nossa exposição a disputas geopolíticas. Como o país deve lidar com esse novo papel?

O Brasil precisa reconhecer que sua condição de grande produtor de alimentos deixou de representar apenas uma vantagem econômica. Em um mundo marcado por conflitos, mudanças climáticas e crescente preocupação com a segurança das cadeias de suprimento, poucos países reúnem condições comparáveis para contribuir para a segurança alimentar global. Essa posição amplia a influência internacional do Brasil, mas também o expõe mais diretamente a decisões políticas, regulatórias e comerciais adotadas por seus principais parceiros.

Responder a esse novo contexto exige atuação em três frentes.

A primeira é diversificar mercados e parcerias. Quanto mais ampla for a inserção internacional do agronegócio brasileiro, menor será sua vulnerabilidade a mudanças políticas ou econômicas em qualquer mercado específico.

Em paralelo, é preciso fortalecer a capacidade brasileira de acompanhar, compreender e influenciar a evolução das regras que disciplinam o comércio internacional. Não basta produzir com eficiência; é preciso participar ativamente dos foros e negociações onde essas regras são definidas, para que o Brasil seja formulador de normas, e não apenas seu destinatário.

Por fim, cabe incorporar a segurança alimentar à projeção internacional do Brasil. O país deve afirmar-se não apenas como um grande exportador de alimentos, mas como um parceiro confiável da segurança alimentar internacional. Essa posição amplia sua credibilidade, fortalece sua capacidade de diálogo e cria oportunidades para uma inserção internacional mais qualificada.

Em outras palavras, a projeção internacional do agronegócio brasileiro deixou de depender apenas de sua capacidade de produzir. Ela dependerá, cada vez mais, da forma como o Brasil se posiciona no debate sobre as regras que organizam o comércio internacional.

3. O comércio internacional passou a ser influenciado cada vez mais por essas questões geopolíticas. Como essa nova realidade afeta o agro brasileiro?

Afeta de forma direta e permanente. A principal mudança é que o comércio internacional já não pode ser compreendido apenas pela lógica econômica. Cada vez mais, ele é condicionado por decisões de natureza estratégica.

Isso significa que tarifas, padrões regulatórios, requisitos de sustentabilidade, controles tecnológicos, segurança das cadeias de suprimento e estabilidade das rotas comerciais passaram a influenciar, de forma crescente, a competitividade dos produtos agrícolas.

Em consequência, o agro brasileiro passou a operar em um ambiente mais complexo. A eficiência produtiva continua sendo essencial, mas já não basta. Empresas e produtores precisam acompanhar transformações políticas, regulatórias e tecnológicas que muitas vezes se originam fora do setor agrícola, mas produzem efeitos imediatos sobre ele.

A competitividade do século XXI começa menos na fazenda do que nos espaços em que se definem as regras do comércio internacional. Por isso, inteligência geopolítica deixou de ser um diferencial e passa também a ser um instrumento de gestão.

O agro brasileiro não pode mais planejar apenas com base em oferta, demanda e câmbio. Variáveis geopolíticas passaram a integrar, de forma permanente, a avaliação de riscos e oportunidades. Quem compreende essas transformações com antecedência amplia sua capacidade de adaptação e fortalece sua posição competitiva.

4. A dependência de fertilizantes importados continua sendo uma das principais vulnerabilidades do setor. Qual pode ser o papel da diplomacia para reduzir essa exposição?

A dependência de fertilizantes é uma das vulnerabilidades estratégicas mais relevantes do agronegócio brasileiro. Reduzi-la exige uma visão de longo prazo, na qual a diplomacia desempenha um papel importante ao lado da política industrial, da inovação e do investimento privado.

A primeira contribuição da diplomacia consiste em diversificar fornecedores e construir parcerias duradouras com países capazes de oferecer estabilidade, previsibilidade e segurança de abastecimento. O relacionamento desenvolvido com o Marrocos ilustra essa estratégia. Além de ser um dos principais detentores de reservas mundiais de fosfato, o país consolidou-se como parceiro confiável do Brasil e vem ampliando sua presença por meio de projetos de investimento voltados à produção de fertilizantes em território brasileiro. Parcerias dessa natureza fortalecem a resiliência das cadeias de suprimento e reduzem a exposição a choques geopolíticos.

A segunda frente consiste em estimular investimentos que ampliem a capacidade produtiva nacional. O objetivo não é apenas importar insumos, mas desenvolver uma base industrial que reduza vulnerabilidades estruturais e aumente a segurança de abastecimento no longo prazo.

Nenhuma dessas iniciativas produz resultados imediatos. Elas dependem de relações de confiança construídas ao longo do tempo, de diálogo permanente entre governos e empresas e de uma diplomacia econômica capaz de aproximar oportunidades de investimento e interesses estratégicos.

Mais do que administrar riscos conjunturais, a diplomacia contribui para fortalecer a segurança econômica do país. No cenário internacional atual, essa passou a ser uma dimensão essencial da competitividade do agronegócio brasileiro.

5. Após décadas de negociação, o acordo Mercosul-União Europeia avança para uma nova etapa. Quais oportunidades concretas ele pode abrir para o agro brasileiro?

O acordo representa uma oportunidade estratégica para o agronegócio brasileiro porque fortalece uma das relações econômicas mais importantes do país e amplia a previsibilidade do comércio e dos investimentos entre os dois blocos. Depois de mais de duas décadas de negociação, ele demonstra que ainda é possível construir consensos e ampliar a integração econômica em um cenário internacional marcado pela fragmentação.

As oportunidades mais imediatas decorrem da ampliação gradual do acesso a mercados, da redução de barreiras tarifárias em diversos segmentos e da maior previsibilidade proporcionada por um marco jurídico comum para o comércio e os investimentos. Esses fatores tendem a estimular novos investimentos, favorecer a integração das cadeias produtivas e ampliar a confiança entre empresas dos dois lados do Atlântico.

Ao mesmo tempo, o acordo confirma uma tendência mais ampla da economia internacional. Competitividade e sustentabilidade caminham cada vez mais juntas. As exigências relacionadas à rastreabilidade, à transparência e às boas práticas ambientais vieram para permanecer. Para um país com a escala, a tecnologia e a capacidade produtiva do Brasil, elas podem representar uma oportunidade de diferenciação e agregação de valor, desde que sejam encaradas como parte da estratégia de inserção internacional do setor.

O acordo Mercosul-União Europeia não deve ser visto como um ponto de chegada. Ele constitui uma plataforma para aprofundar a integração econômica, ampliar a presença internacional do agronegócio brasileiro e fortalecer uma parceria estratégica entre dois blocos que compartilham interesses relevantes em comércio, investimentos e segurança alimentar.

6. Como embaixador do Brasil no Marrocos, o senhor acompanha de perto a transformação econômica da África. Que oportunidades esse continente oferece ao agronegócio brasileiro e tropical que ainda são pouco exploradas?

A África talvez seja a fronteira mais promissora e, ao mesmo tempo, a menos compreendida da projeção internacional do agronegócio brasileiro. O continente reúne crescimento demográfico, urbanização acelerada, expansão da renda e crescente demanda por alimentos. Esses fatores, combinados, criam oportunidades que tendem a ganhar importância nas próximas décadas.

O Brasil possui vantagens particularmente relevantes nesse contexto. Nossa experiência em agricultura tropical, construída ao longo de décadas por instituições como a Embrapa e pelo próprio setor produtivo, responde a desafios muito semelhantes aos enfrentados por diversos países africanos. Essa experiência constitui um patrimônio tecnológico e institucional de grande valor para iniciativas de cooperação, investimento e desenvolvimento agrícola.

O Marrocos ocupa uma posição singular nesse processo. Além de sua importância como parceiro na área de fertilizantes, consolidou-se como um elo logístico, industrial e financeiro voltado simultaneamente para a Europa e para a África Ocidental. Para empresas brasileiras, isso significa a possibilidade de utilizar o país como ponto de apoio para uma estratégia mais ampla de inserção no continente africano.

A oportunidade, contudo, vai além do comércio. Ela envolve cooperação tecnológica, formação de capacidades locais, investimentos conjuntos e construção de cadeias de valor adaptadas às condições da agricultura tropical. Trata-se de uma agenda de longo prazo, baseada em interesses convergentes e benefícios mútuos.

O principal desafio não é identificar oportunidades. É construir presença. Mercados africanos valorizam relações de confiança, continuidade e conhecimento recíproco. Como em qualquer outra região do mundo, comércio e investimento são consequência de relacionamentos sólidos e de uma presença institucional consistente. É precisamente nesse campo que o Brasil dispõe de amplo espaço para ampliar sua atuação.

7. Em um mundo cada vez mais polarizado, como o Brasil pode preservar boas relações comerciais com diferentes blocos econômicos sem comprometer seus interesses estratégicos?

A tradição diplomática brasileira oferece uma resposta consistente a esse desafio: autonomia, diálogo e diversificação de parcerias. Esses princípios permanecem atuais porque ampliam a margem de manobra do país em um ambiente internacional cada vez mais competitivo.

O Brasil não tem interesse em transformar suas relações econômicas em escolhas excludentes. Ao contrário, sua força reside justamente na capacidade de manter relações construtivas com diferentes parceiros, preservando a liberdade para defender seus próprios interesses em cada contexto.

Isso significa aprofundar relações econômicas e comerciais com Estados Unidos, União Europeia, China e outras economias relevantes, bem como utilizar mecanismos de cooperação regional e plurilateral para ampliar a presença internacional do país e fortalecer sua capacidade de influência.

Para o agronegócio, essa postura é particularmente importante. Mercados, investimentos, tecnologia e insumos estratégicos raramente se concentram em uma única região do mundo. Diversificar parceiros não representa apenas uma opção de política externa; constitui uma estratégia de redução de riscos e de ampliação de oportunidades.

O maior risco, nesse cenário, não é manter relações com diferentes polos de poder. É perder capacidade de iniciativa. Em um ambiente internacional mais complexo, países que atuam com estratégia e previsibilidade preservam mais opções de escolha e defendem com maior eficácia seus interesses nacionais.

8. Muito se fala que o agro precisa deixar de agir apenas de forma reativa diante das mudanças globais. O que significa, na prática, uma postura mais estratégica para o setor?

Significa substituir uma lógica de reação por uma cultura permanente de antecipação. Em um ambiente internacional cada vez mais condicionado pela geopolítica, esperar que uma medida seja anunciada para então definir uma resposta já não é suficiente.

Isso exige incorporar a inteligência geopolítica ao processo de tomada de decisão. Da mesma forma que empresas acompanham preços, clima ou tendências de mercado, precisam acompanhar também a evolução de políticas públicas, mudanças regulatórias, negociações internacionais e transformações tecnológicas capazes de afetar sua competitividade.

Na prática, essa postura envolve três dimensões complementares. A primeira é desenvolver capacidade permanente de análise prospectiva, permitindo identificar tendências antes que elas se convertam em barreiras ou oportunidades concretas. A segunda é fortalecer a presença institucional do setor nos principais centros de decisão internacional, por meio de um diálogo contínuo com governos, organismos internacionais, centros de pesquisa e entidades representativas, sempre em estreita coordenação com a diplomacia brasileira. A terceira é investir em relacionamentos de longo prazo nos mercados considerados estratégicos, compreendendo que confiança e influência se constroem ao longo do tempo.

Durante muito tempo, vantagem comparativa bastava. Hoje ela continua indispensável, mas já não é suficiente. A competitividade também depende da capacidade de compreender tendências, influenciar regras e construir relações de confiança. Essa é, em essência, a passagem da vantagem comparativa para a vantagem estratégica.

9. Como membro do Conselho Estratégico da ABAG, quais temas o senhor considera prioritários para fortalecer a competitividade do agro brasileiro na próxima década?

Para a próxima década, vejo cinco eixos de atuação prioritária para fortalecer a competitividade internacional do agronegócio brasileiro.

O primeiro é consolidar a segurança alimentar como um dos principais ativos da projeção internacional do Brasil. O país precisa ser reconhecido não apenas por sua capacidade de produzir alimentos, mas também por sua contribuição para a estabilidade do sistema alimentar internacional.

O segundo passa por reduzir vulnerabilidades estruturais, especialmente no acesso a insumos estratégicos, por meio da diversificação de fornecedores, da atração de investimentos e do fortalecimento da segurança econômica do setor.

O terceiro consiste em transformar sustentabilidade, rastreabilidade e inovação em fatores permanentes de competitividade. Os mercados caminham nessa direção, e o Brasil reúne condições para converter essa tendência em vantagem estratégica.

O quarto envolve ampliar a inserção internacional do agronegócio brasileiro, diversificando mercados e fortalecendo sua presença em regiões de grande potencial, como a África e partes da Ásia.

O quinto está em desenvolver capacidade permanente de inteligência geopolítica, análise prospectiva e defesa comercial. Em um ambiente internacional mais complexo, essas competências deixam de ser instrumentos de reação e passam a integrar a estratégia de crescimento das empresas e das entidades representativas do setor.

Nenhuma dessas prioridades poderá ser alcançada isoladamente. Elas exigem coordenação entre governo, setor privado, academia e instituições de pesquisa. A ABAG, por sua capacidade de reunir esses diferentes atores em torno de uma agenda comum, está particularmente bem posicionada para estimular essa reflexão estratégica e contribuir para a construção de consensos em torno dos grandes desafios do agronegócio brasileiro.

10. O senhor será um dos painelistas do 25º Congresso Brasileiro do Agronegócio. Qual é a principal mensagem que pretende levar às lideranças do setor?

Minha principal mensagem é que o agronegócio brasileiro já ocupa uma posição estratégica no cenário internacional. O desafio da próxima década é transformar essa realidade em uma estratégia consciente e de longo prazo.

Durante muitos anos, foi possível tratar política externa e atividade econômica como esferas relativamente separadas. Hoje essa distinção é muito menos nítida. Decisões relacionadas ao comércio, à tecnologia, à sustentabilidade, à segurança alimentar ou às cadeias globais de suprimento são cada vez mais influenciadas por fatores geopolíticos, e seus efeitos chegam rapidamente às empresas e aos produtores.

Isso exige uma mudança de perspectiva. Produzir com eficiência continuará sendo condição indispensável para competir. Mas a competitividade do futuro dependerá também da capacidade de compreender o ambiente internacional, antecipar transformações e participar, de forma mais ativa, dos debates que definirão as regras do comércio e dos investimentos nas próximas décadas.

O Brasil reúne atributos extraordinários: escala de produção, capacidade tecnológica, agricultura tropical altamente desenvolvida e uma tradição diplomática reconhecida pelo diálogo e pela previsibilidade. Poucos países dispõem dessa combinação.

A grande oportunidade da próxima década será transformar essas vantagens em maior influência internacional. O Brasil tem todas as condições para participar de forma mais ativa da construção das regras que moldarão o comércio, os investimentos e a segurança alimentar no século XXI. Essa é a agenda que, a meu ver, deve orientar o futuro do agronegócio brasileiro.

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