
A decisão da União Europeia de excluir o Brasil da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal acendeu um alerta no agronegócio. Embora o impacto comercial direto seja limitado, o economista e analista político Miguel Daoud avalia que o maior risco está na perda de credibilidade do país perante os mercados internacionais.
Em entrevista ao videocast Radar Rural, apresentado pelos jornalistas Beatriz Gunther e Victor Faverin, Daoud afirmou que o debate não deve se concentrar em uma possível postura protecionista da Europa, mas na capacidade do Brasil de atender às exigências de rastreabilidade exigidas pelo bloco.
Assista ao episódio completo:
Para Daoud, a exclusão do Brasil não representa um questionamento sobre a qualidade ou a sanidade dos produtos brasileiros, mas sim sobre a comprovação da origem e do controle da produção.
“O que eles estão pedindo é rastreabilidade. Não estão questionando a qualidade da carne brasileira nem a capacidade de produção do país”, afirmou.
Ele destacou ainda que Argentina, Paraguai e Uruguai conseguiram atender às regras impostas pela União Europeia, o que reforça a necessidade de o Brasil concentrar esforços na solução do problema.
“A questão não é econômica. O problema é perder credibilidade. Mercado você recupera. Credibilidade é muito mais difícil.”
Apesar de a União Europeia representar uma parcela relativamente pequena das exportações brasileiras de carne bovina e de frango, Daoud considera o bloco estratégico por funcionar como referência para outros compradores.
Segundo ele, países como o Reino Unido já acompanham os critérios adotados pelos europeus e podem seguir o mesmo caminho.
Além disso, o analista chamou atenção para o fato de que a China também vem ampliando as exigências relacionadas à rastreabilidade dos alimentos importados.
“O mercado europeu é uma vitrine. Se você atende às exigências da Europa, transmite confiança para o restante do mundo.”
Outro tema debatido no episódio foi a nova rodada de tarifas anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Na avaliação de Daoud, as medidas fazem parte da estratégia política adotada pelo republicano desde a campanha eleitoral, baseada na defesa do slogan “América em primeiro lugar”.
Segundo ele, a proposta busca fortalecer a indústria americana, mas pode produzir o efeito contrário ao elevar os custos para os próprios consumidores dos Estados Unidos.
“Quando ele taxa produtos importados, quem paga a conta é o consumidor americano.”
O analista também observou que parte das tarifas enfrenta questionamentos jurídicos e ainda depende de decisões nos tribunais americanos antes de entrar efetivamente em vigor.
Na reta final da entrevista, Daoud comentou as expectativas para o próximo Plano Safra.
Embora o governo sinalize um volume recorde de recursos, ele avalia que a principal preocupação do produtor rural está nas condições de acesso ao crédito.
“O problema não é o tamanho do Plano Safra. O problema são as condições.”
Segundo o economista, a combinação de juros elevados, aumento da inadimplência e escassez de recursos controlados pode fazer com que boa parte dos financiamentos chegue ao produtor com taxas consideradas inviáveis para muitas atividades.
Ele também destacou a importância do seguro rural diante das perdas provocadas por eventos climáticos extremos nos últimos anos.
Ao deixar uma mensagem para os produtores rurais, Daoud defendeu que o agronegócio continue cobrando políticas públicas capazes de garantir competitividade ao setor.
Para ele, o agro permanece como o principal motor de crescimento da economia brasileira e precisa de instrumentos que reduzam riscos e estimulem a produção.
“O agronegócio não quer favor. Precisa de condições para continuar produzindo e gerando riqueza para o país.”
O post ‘Mercado você recupera, credibilidade é muito mais difícil’ diz Miguel Daoud sobre veto da União Europeia apareceu primeiro em Canal Rural.